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Puerpério

Puerpério: a diferença entre o que passa e o que precisa de ajuda

Chorar sem motivo depois do parto é comum e passa. Mas existe uma linha, e saber onde ela está muda tudo.

Ninguém prepara a mulher para o depois.

Existem nove meses de conversa sobre o parto, sobre o enxoval, sobre o nome. E aí o bebê nasce, todo mundo vai embora, e começa a parte que quase não se fala: o corpo doendo, o sangramento que não para, o peito rachado, a casa cheia de gente dando palpite, e uma tristeza que chega do nada e não pede licença.

Você olha aquele bebê que você quis tanto e não sente o que achou que ia sentir. Aí vem o pensamento que aperta: o que há de errado comigo?

Provavelmente nada. Mas vale entender o que está acontecendo, porque tem uma diferença importante entre duas coisas que se parecem muito.

O pensamento que você tem vergonha de ter

Antes de qualquer coisa, sobre a parte que quase ninguém fala em voz alta.

Muita mulher, no meio da madrugada, com o bebê chorando sem parar e sem saber o que fazer, tem um pensamento que a assusta. Um pensamento feio. Uma imagem que aparece sozinha e some, e deixa um horror atrás. E aí ela passa o resto da noite rezando para que ninguém saiba o que passou pela cabeça dela.

Esses pensamentos têm nome, são conhecidos há muito tempo, e são muito mais comuns no pós-parto do que qualquer mãe imagina. Eles chegam sem convite, não são desejo, e ter um deles não diz sobre você aquilo que você está com medo que diga.

Repara numa coisa: o horror que você sentiu é a prova de que aquilo não é você. Quem tem esse tipo de pensamento e se desespera com ele está exatamente do lado seguro da linha. O que exige atenção imediata é outra coisa, e a gente chega lá daqui a pouco.

Um pensamento que te assusta não é um plano. É um pensamento.

Baby blues: o que passa sozinho

O nome é meio bobo, mas a coisa é real e é muito frequente. Estima-se que entre metade e 80% das mulheres passem por isso.

Ele costuma começar entre o segundo e o quinto dia depois do parto, com pico por volta do quarto ou quinto, e vai embora sozinho em até duas semanas. É uma reação a um conjunto absurdo de coisas acontecendo ao mesmo tempo: queda hormonal brusca, exaustão física, um corpo em recuperação e uma vida inteira reorganizada em 48 horas.

Como o baby blues costuma aparecer

O ponto principal: no baby blues, mesmo mal, você ainda consegue cuidar de você e do bebê. É desconfortável, é pesado, mas não desliga o funcionamento. E ele passa.

Depressão pós-parto: o que não passa sozinho

Essa é outra coisa, e é bem mais comum do que se imagina. Segundo o Ministério da Saúde, uma em cada quatro mulheres no Brasil apresenta sintomas depressivos depois do nascimento do bebê. Dados da Fiocruz apontam na mesma direção, em torno de 25% das mães brasileiras.

Uma em cada quatro. Numa roda de oito amigas, são duas.

A depressão pós-parto não aparece só na primeira semana. Ela pode surgir ao longo do primeiro ano e até depois, e não vai embora com descanso e apoio. Ela precisa de tratamento, e responde bem a tratamento.

Três sinais que ajudam a diferenciar

Se você leu isso e se reconheceu, não significa que você é uma mãe pior nem que você está exagerando. Significa que está acontecendo com você uma coisa que acontece com muitas mulheres e que tem tratamento.

Quando não dá para esperar

Tem uma situação em que a hora de procurar ajuda é agora, não semana que vem.

Se aparecer o pensamento de que todos estariam melhor sem você. Se aqueles pensamentos que assustam deixarem de causar horror e passarem a parecer uma vontade. Se você se sentir confusa, ver ou ouvir coisas que os outros não veem, ou perder o fio da realidade.

Isso é raro, mas existe, e é urgência médica. Procure atendimento imediatamente, ligue para alguém de confiança e não fique sozinha.

CVV: 188. Ligação gratuita, 24 horas por dia, todos os dias. Também atende por chat no site cvv.org.br.

Em emergência, procure um pronto-socorro ou ligue 192 (SAMU).

Pedir ajuda não é exagero

A razão mais comum para uma mulher demorar a procurar ajuda no puerpério não é falta de informação. É medo de ser julgada. Medo de ouvir que está sendo dramática, mimada, ingrata. Medo de que alguém conclua que ela não ama o próprio filho.

Então vale dizer com todas as letras: procurar ajuda no pós-parto é uma das coisas mais responsáveis que uma mãe pode fazer. Não é fraqueza, não é frescura, e não tira de você nada do que você é. Você pode falar com o obstetra que já te acompanha, com a equipe do posto de saúde, com um psicólogo ou psiquiatra. Todos esses caminhos existem e servem.

E se alguém disser que é exagero, essa pessoa está errada. A culpa que aparece nessas horas não é um bom conselheiro.

Cuidar de você é parte de cuidar dele. Não é o contrário disso.

Sobre o tempo

Uma última coisa, para quem está no meio disso agora.

O puerpério tem fim. As duas primeiras semanas são as mais brutas, e você está atravessando elas com o corpo machucado, sem dormir, e com uma criatura que depende inteiramente de você. Não é pouca coisa o que está sendo pedido de você. É muita coisa, e você está fazendo mesmo assim.

Você não precisa amar cada minuto disso para ser uma boa mãe. Não precisa nem gostar. Só precisa atravessar, e você não precisa atravessar sozinha.

A gente não é médica. Este texto é informação e acolhimento, e não substitui uma consulta. Se alguma coisa aqui soou como você, leve isso para alguém da saúde.

Nos dias em que parecer demais, o Maea tem uma mensagem para você.

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Escrito por Elis e Faby, as duas mães por trás do Maea.